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Introdução
A PRRS é uma enfermidade que pode causar abortos próximos ao parto, partos prematuros, mumificação fetal, leitões fracos e natimortos, infertilidade e sinais respiratórios em diversas faixas etárias, sendo endêmica (persiste por muito tempo em uma população) em vários países. No Brasil, não há evidências da existência da doença e, portanto, devem ser empenhados esforços para evitar sua introdução, principalmente através da importação de animais.
O impacto econômico da PRRS inclui perdas por aumento de mortalidade, baixa performance reprodutiva, agravamento dos sintomas de outras doenças, elevados gastos com vacinas e medicações e custos com diagnósticos e monitorias. As perdas econômicas podem variar de US$ 250 a 300 por fêmea do plantel reprodutor (CIACCI-ZANELLA, 2004).
A fim de melhorar a qualidade dos rebanhos suínos brasileiros, os produtores e empresas brasileiras importam o material genético (sêmen e animais vivos) que são originários de países reconhecidos por sua tecnologia, tal como os países norte-americanos e europeus. Entretanto, este comércio pode trazer problemas sérios para o status de saúde dos rebanhos brasileiros, possibilitando, por exemplo, a entrada do vírus da PRRS (PRRSV) (CIACCI-ZANELLA et al., 2004).
A doença consta na Lista da OIE (junção das antigas listas A e B), sendo, por esta razão, classificada como enfermidade de notificação obrigatória.
Ocorrência mundial e histórico
A PRRS (Porcine Reproductive and Respiratory Syndrome), também conhecida no Brasil como SRRS (Síndrome Reprodutiva e Respiratória dos Suínos), foi assim batizada nove anos após o surgimento do primeiro caso (ALBINA, 1997). Sua primeira ocorrência foi nos EUA em 1987, na Carolina do Norte, quando foi denominada como Doença Misteriosa dos Suínos (DMS), Orelha Azul (Blue ears) entre outros nomes (CIACCI-ZANELLA, 2004). No mesmo ano, a síndrome foi diagnosticada em Quebec, no Canadá. Posteriormente, em 1990, foi descrita na Europa e países asiáticos (CIACCI-ZANELLA et al., 2004; CIACCI-ZANELLA, 2004; SOBESTIANSKY, 1999; SORENSEN, 1998).
Na Europa, o vírus da PRRS (PRRSV) foi reconhecido pela primeira vez no Nordeste da Alemanha, em 1990. A doença foi caracterizada por aborto no final da gestação e partos de natimortos em matrizes, além de sofrimento respiratório em animais de creche, causando grandes perdas econômicas. Em poucos meses a doença se espalhou pelo nordeste da Europa (PESCH et al., 2005). Na Holanda, Bélgica, Inglaterra, França e Escócia, foram relatados os primeiros casos em 1991.
Os isolados da Holanda e EUA foram denominados Lelystad e Vírus da Infertilidade e da Síndrome Respiratória dos Suínos (SIRS), respectivamente (CIACCI-ZANELLA, 2004).
Na França, conforme anteriormente citado, a doença apareceu em 1991. Espalhou-se em áreas com grande concentração de suínos, provavelmente, através de animais em movimento e aerossóis. Em áreas de baixa concentração, aparentemente, ela foi espalhada via sêmen. Entrou na região francesa de ‘Pays de la Loire’ em novembro de 1992. Com efeitos variáveis, causando desde severas falhas reprodutivas, mortalidade de leitões, perda de peso em animais de terminação até infecção sub-clínica. A fonte mais conhecida foram animais infectados que foram importados (LE POTIER, 2004).
A PRRS foi diagnosticada pela primeira vez na Dinamarca, em fevereiro de 1992, em uma ilha próxima à fronteira entre Dinamarca e Alemanha (Island of Als). Nas Centrais de Inseminação Artificial, o vírus é encontrado desde 1993 (MOUSING et al.,1997).
Na Espanha, a doença surgiu em 1992, após a importação de animais da Alemanha.
Evidências sugerem que o PRRSV circula em Ontário, no Canadá, desde 1979 (DEWEY et al., 1999), porém não há nada comprovado. CIACCI-ZANELLA (2004) relata que há evidências da presença de anticorpos para PRRS na Europa desde 1979 e desde 1985 nos EUA e República da Coréia. Sendo assim os EUA continuam sendo considerados como os primeiros a apresentar a doença.
Nos EUA, grandes perdas econômicas ocorreram entre 1988 e 1989. Após esta data, a doença passou a ter caráter crônico, sendo reduzidos os casos agudos.
A doença é endêmica em vários países. Em 1994 a PRRS foi oficialmente reconhecida em 16 países de 3 diferentes continentes (Ásia, América e Europa) (ALBINA, 1997).
No Brasil, até a presente data, não existem dados sobre a ocorrência da doença. Em 2000, foi realizado um estudo de prevalência para corroborar com esta consideração. O estudo foi realizado em granjas que importaram material genético desde 1990 até 2000 (CIACCI-ZANELLA et al., 2004). Os resultados foram negativos. Ressalta-se que não houve evidências clínicas, laboratoriais ou epidemiológica que justificassem a presença do vírus no rebanho brasileiro.
De acordo com MENGELING (1996), estudos sorológicos sugerem que a prevalência da infecção é muito maior do que o reconhecimento da doença clínica.
Etiologia
Vários agentes foram incluídos como responsáveis pelo quadro da PRRS, antes de definir o vírus causador do quadro (Influenza Suína, Peste Suína Clássica, Enterovírus Suíno, Parvovírus Suíno, Doença de Aujeszky, Leptospira interrogans – sorovar bratislava e micotoxinas) (CIACCI-ZANELLA, 2004).
O vírus da PRRS (PRRSV) é um vírus RNA, pequeno, com 45 a 65nm de diâmetro (CIACCI-ZANELLA, 2004) e envelopado (SORENSEN, 1998). Pertence ao Gênero Arterivirus e Família Arteriviridae e Ordem Nidovirales (OIE, 2006). Há amostras distintas. As amostras européias e americanas do vírus possuem genótipos diferentes. Entretanto, diferenças genéticas, antigênicas e de patogenicidade ocorrem, dentro do mesmo genótipo (SOBESTIANSKY, 1999).
A primeira introdução do PRRSV em populações de suínos susceptíveis foi caracterizada por epidemias agudas de falhas reprodutivas, mortalidade de leitões antes do desmame e doença respiratória em creche e terminação. A manifestação se deu nos dois continentes: América do Norte e Europa em um período de 3 anos. Após, isoladas as cepas, percebeu-se que elas eram diferentes antigênica e geneticamente. Conseqüentemente foram isoladas e classificadas em dois genótipos diferentes: genótipo europeu e norte-americano (LABARQUE, 2004).
As amostras americana e européia são tão diferentes em características genéticas e antigênicas que são pertencentes a duas sub-populações diferentes, originadas de um mesmo vírus ancestral. As duas sub-populações poderiam ter se separado por influência da pressão local de seleção (ALBINA, 1997).
A amostra americana tem mostrado maior variabilidade. Alguns estudos mostraram que as amostras virais da Rússia, República Tcheca, Dinamarca, Itália, Polônia, Lituânia e Espanha possuem alto grau de divergência com relação à variabilidade (LABARQUE, 2004). De acordo com INDIK et al. (2005), a amostra européia é considerada menos variável, com exceção de uma amostra encontrada na Lituânia.
Na Ásia tem sido relatada a ocorrência de ambos os tipos de vírus da PRRS.
CHANG et al. (2002) mostraram que o PRRSV que envolve freqüentemente a infecção em suínos possui diferentes genes no genoma viral que realizam mutações em vários graus.
Juliana Sarubbi
Méd. Vet. APCS/CDA
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juliana.sarubbi@vivax.com.br
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