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DICAS TÉCNICAS
DESEMPENHO REPRODUTIVO DE FÊMEAS SUÍNAS INSEMINADAS COM DEPOSIÇÃO INTR-UTERINA DE SÊMEN
 
Inseminação Artificial
 

Reduções no numero de espermatozóides (sptz) utilizando a Inseminação Artificial Tradicional (IAT) promovem prejuízos ao desempenho reprodutivo das fêmeas, sendo a inseminação de 3x109 sptz diluídos em 80-100 ml, a técnica mais recomendada. Os trabalhos realizados nessa área indicam que a inseminação com doses de 2x109 sptz promove redução de 0,69 e 0,40 leitão em relação às fêmeas inseminadas com 4x109 sptz (P=0,02) e 3x109 sptz (P=0,20), respectivamente e que fêmeas inseminadas com 1x109 sptz apresentam redução na taxa de prenhez, taxa de parto e tamanho de leitegada (P<0,001) quando comparadas a fêmeas inseminadas com 2 e 3x109 sptz. No final dos anos 50 e inicio dos anos 60, a possibilidade de redução do volume e número de sptz na dose inseminante (DI) através da deposição diretamente dentro dos cornos uterinos já era estudada.
      Nesses trabalhos, foi utilizado um instrumento constituído de uma sonda de 35 cm que era colocada na cérvix em um cateter flexível de 52 cm introduzido através desta alcançando o interior do útero. A partir do final dos anos 90, reiniciaram-se os estudos sobre essa técnica de IA e a deposição da DI diretamente dentro do útero de forma não cirúrgica mostrou-se uma alternativa viável para possibilitar a utilização de reduzidos números de sptz e volume, a nível comercial, sem prejuízos ao desempenho reprodutivo.
      Atualmente, para a inseminação artificial intra-uterina (IAU) é utilizada uma pipeta tradicional fixada nos anéis cervicais e um cateter com diâmetro menor, que é introduzido através da pipeta atingindo aproximadamente 20 cm além da cérvix, depositando a DI dentro do corno uterino. A utilização desse instrumento permite reduções no número de sptz até valores de 1x109 sptz/80 ml utilizando protocolos de IA convencionais e 100x106 sptz/10 ml com única IA aproximada ao momento da ovulação.
      O objetivo do presente trabalho foi avaliar a possibilidade de passagem do cateter através da cérvix e o desempenho reprodutivo de fêmeas inseminadas pela técnica intra-uterina com redução do volume e número de sptz em relação a IAT utilizada atualmente.

Material e Métodos
      Foram utilizadas 608 fêmeas pluríparas Cambourough 22 de uma granja comercial no Centro-Oeste brasileiro com ordem de parto variando de 2 a 4, duração da lactação de 15 a 19 dias e intervalo desmame-estro de 2 a 6 dias para avaliação do desempenho reprodutivo.
      O experimento foi realizado utilizando delineamento completamente casualizado, sendo os animais distribuídos uniformemente em dois tratamentos: T1 - IAU com doses de 1,5 bilhão de sptz e 60 ml de volume; T2 - IAT com doses de 3,0 bilhões de sptz e 90 ml de volume. Como doadores de sêmen, foram utilizados 6 machos, sendo a coleta realizada pelo método da mão enluvada. Para avaliação do ejaculado foram analisados volume, motilidade, aglutinações e a diluição foi realizada em "split-sample", ou seja, as doses utilizadas para ambos os tratamentos foram produzidas a partir do mesmo ejaculado.
      A determinação da concentração pré-diluição foi realizada através da contagem de sptz na câmara de Neubauer, sendo feita uma recontagem em todas as doses utilizadas nas inseminações. Foi avaliado o percentual de sptz moveis até 72 horas após a diluição, embora as doses fossem utilizadas com, no máximo, 36 horas após o processamento e armazenamento a 15-18ºC.
      O diagnóstico de estro foi realizado duas vezes ao dia e as inseminações seguiram o protocolo utilizado pela granja: 12, 24, 36 e 60 horas após o inicio do estro, sempre verificando o reflexo positivo de tolerância ao homem na presença do macho previamente à realização da IA. A ocorrência de presença de sangue durante a realização das IAs foi registrada.
      Foi efetuado o diagnóstico de retorno ao estro a partir do 18º dia de gestação, pelo teste de pressão lombar na presença do macho e de gestação pelo uso da ultra-sonografia transcutânea em tempo real, com transdutor linear convexo de 5 MHz do 20º ao 23º dia após a IA.
      No parto, foram coletados dados referentes ao tamanho da leitegada (nascidos vivos, natimortos e mumificados). Os dados de retorno ao estro, taxa de prenhez e taxa de parto ajustada foram analisadas pelo teste do Qui-quadrado e os dados de tamanho de leitegada foram analisados pelo procedimento GLM, sendo as médias comparadas pelo teste t.

Resultados e Discussão
      A possibilidade de otimização da utilização de machos geneticamente superiores e disseminação mais rápida de suas características desejáveis, aumento do número de fêmeas inseminadas por ejaculado e redução nos custos de cobertura são algumas vantagens que a diminuição do número de sptz e volume de diluente na DI pode representar, além disso, essa biotecnologia viabiliza a utilização de inseminações com sêmen congelado/descongelado e com sptz sexados. As principais desvantagens são a dificuldade de passagem do cateter através da cérvix em fêmeas nulíparas e primíparas, possivelmente devido ao menor desenvolvimento do trato genital, o que limita o uso nessas categorias de animais, e a necessidade de maior precisão na determinação da concentração de sptz do ejaculado, já que a importância dessa medida é diretamente proporcional ao grau de redução do número de sptz da dose. Neste trabalho, não foram observadas diferenças (P>0,05) em nenhum dos parâmetros de desempenho reprodutivo analisados, indicando que a deposição intra-uterina permite a formação eficiente do reservatório espermático na junção útero-tubárica e adequada fecundação a partir de uma DI com menor número de sptz.
      Os resultados de desempenho reprodutivos avaliados são apresentados na Tabela 1. Esses resultados assemelham-se aos encontrados nos trabalhos utilizando equipamentos semelhantes e menor número de células espermáticas. Apesar do cateter permitir uma deposição unilateral do sêmen, foi avaliada a distribuição da DI pelo trato genital da fêmea com auxilio de um exame de Raio-X contrastado, e foi observada a distribuição do contraste, em ambos cornos uterinos, cinco minutos após o inicio da inseminação, não existindo, portanto, evidencias de prejuízo à fecundação bilateral. No grupo IAU, foi possível a inserção do cateter através da cérvix em 97,4% das fêmeas (304/312).
      Desde o inicio das pesquisas com a deposição intra-uterina de sêmen suíno, independente do tipo de cateter utilizado para sua realização, como endoscópios, cateteres flexíveis e pipetas para IAU, o sucesso do processo de passagem da pipeta e cateter no trato genital sempre foi superior a 90%, inclusive nos trabalhos onde as IAs foram conduzidas pelos funcionários das granjas com um breve treinamento prévio, e o tempo total gasto para a realização da IAU foi semelhante à duração da IAT. Um possível aumento do tempo durante o processo de introdução do cateter poderia ser facilmente compensado pelo menor tempo de infusão da DI, já que na IAU o volume utilizado chega a ser 10 a 20 vezes menor. Foi observada presença de sangue no cateter, em pelo menos uma das IAs, em 9,5% das fêmeas, e esse fato possivelmente esteja associado com a maior dificuldade de passagem do cateter.
      O retorno ao estro das fêmeas que apresentaram sangue na IA (4/29; 13,8%) foi maior (P=0,002) que o observado nas fêmeas que não tiveram sangue (7/275; 2,55%). Em trabalho recentemente realizado utilizando a mesma metodologia, foi observada presença de sangue em 1,8% dos animais e não foi analisada a possível relação com retornos ao estro.

Conclusões
      A deposição de 1,5 bilhão de sptz diretamente no útero permite atingir dados de desempenho reprodutivo equivalentes à inseminação artificial tradicional e permite a redução de 50% no número de sptz e um terço no volume do diluente utilizado. Os resultados de desempenho reprodutivo juntamente com os dados de passagem da pipeta e cateter através da cérvix possibilitam a afirmação de que a utilização desse equipamento é viável na rotina das granjas.
Tabela 1 - Desempenho reprodutivo de fêmeas após a inseminação intra-uterina e tradicional.
 
Parâmetros        Intra-Uterina (n=304)   Tradicional (n=304)   Nível de significância
Retornos ao estro (%)      3,6                        4,3                P=0,68
Taxa de prenhez (%)      99,5                        97,2                P=0,06
Taxa de Parto (%)      92,8                        93,4                  P=0,76
Taxa de Parto Ajustada (%    94,9                        94,4                P=0,75               
Nascidos Totais* 11,58 +\- 2,61                 11,76 +\- 2,80                P=0,40

*Lsmeans +\- desvio padrão.

 

1Agentes financiadores: CNPq/CAPES

 
 
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